Sobre tudo o que nasça e que se exprima
Em forma do que nunca vos direi,
Desse enigma me basta, eterna, a rima
Pr`a vos falar do muito que eu não sei
E, mesmo que não haja quem redima
Quantas lacunas já por cá deixei,
Que importa se de música se anima
O quanto quis dizer, mas não logrei?
Jamais duvidarei de alguém que entenda
Que ousar a melodia é dar-lhe a voz
Que expressa o seu sentido universal,
Ou que, ao ouvi-la, exulte e compreenda
O quanto dela vibra em todos nós
Se o ritmo que alcançou for musical…
Maria João Brito de Sousa – 02.04.2012 – 14.53h
Tempo de Pascoa,tempo tão sublime
Tempo em que o amor ao ódio supera
Somente a paz e a luz, em nós impera
Nenhum mal haverá que se aproxime;
Ressuscitou a Luz que nos redime
Que nos eleva a Deus e recupera
Nossa Fé renovada, em vida e espera
Pela Ressurreição que nos suprime.
Foi na Última Ceia, Q'uele mostrou
Que o maior amor é de quem amou
Sem limites na Fé, amor de irmão.
Irmão, que foi irmão, p'ra nos salvar
Foi exemplo de amor e quis provar
Que em amor é maior, é a Salvação!
Cecília Rodrigues
Março-2012
SAUDADE DE AMORES
Teu rosto, é sonho meu já esquecido
Teus murmúrios, ainda guardo nos ouvidos
É um som que me vai deixando vencido
E na mente, resta apenas teus gemidos
Que os recordo tantas vezes em prantos
Na minha triste solidão atroz
São prazeres, amores e encantos
Tais momentos passados, quando sós
Desenhei teu nome em meu coração
Agora é poema nos troncos do arvoredo
São pedaços gravados de desilusão
Que só de lembrar sinto medo
E nas planícies de verde frescura
Procuro a linda flor vermelha açucena
Que a beijarei com toda ternura
Como a ti beijava de manhã serena
Hoje, vem o choro destas lembranças
Quando no campo olho as lindas flores
Que com elas enfeitava tuas tranças
Me resta agora a saudade desses amores
De: Fernando Ramos
Como hei-de interpretar tão estranho gesto
De clara discordância e suspeição
Se, no que me respeita, é sempre honesto
Este acto de vos dar - ou não... - razão?
Tudo o que vos disser terá, de resto,
A mesma garantia de isenção;
- De quanta opinião guardar no cesto,
Construirei, mais tarde, opinião...
Se o tempo escassear, duplicarei
Em vontade o que falte às aptidões,
Em perda o que me for escapando em ganho
Mas, enquanto viver, eu escolherei
E irei sempre guardando opiniões,
Sem antes lhes medir força ou tamanho...
Maria João Brito de Sousa - 01.02.2012 - 18.57h
É de longe que venho. O que eu corri…
Quantos prados eivados de ribeiras,
Quantos penhascos, quantas ribanceiras
E quanto esconso vale não percorri!
E o tanto que passou e que nem vi,
Na pressa de correr? Entre carreiras,
Se perdem forças, se ganham canseiras,
Se esquece tanto quanto eu já esqueci…
Às vezes muito tarde, noite afora,
Esperando a madrugada, como agora,
De pálpebras cerradas mas sonhando,
Outras vezes de dia, a qualquer hora,
Gravando a irreverência da demora
Neste quase insondável “sei lá quando”…
Maria João Brito de Sousa – 13.12.2011 – 21.16h
Imagem de um dos megalitos da Ilha de Páscoa, retirada da internet
Quis falar do Mondego e, na verdade,
É da foz do meu Tejo que vos falo
E cresce cá por dentro a voz que calo
E conta das saudades sem saudade
Solta-se o sonho oblíquo à claridade
E a linha de horizonte é um cavalo
Que não sei se lá está, se imaginá-lo
É lapso de memória ou se é vontade…
Galopa o meu poente à beira Tejo
Rumo a essas lonjuras que nem vejo
Por estarem tão além do meu futuro
Sobra-me, então, do sonho, o claro espanto
Do cavalo-solar que aqui levanto
E rasga, a ferro e fogo, um céu já escuro!
Maria João Brito de Sousa – 01.11.2011 – 16.00h
É por dentro das horas que desfio
O rosário das queixas que não faço
E esta fome de sol, que por cá passo,
Que me apodrece a vida e me faz frio
Sou abismo cavado em cada rio
Que rompe a terra mãe no seu abraço
E, do meu mais profundo, o puro traço
De quem, deixando-se ir, não desistiu
Mas, cada vez mais frio, dentro das horas
Que passam desmentindo outras demoras
Que o ciclo natural sempre despreza,
Se o leito do meu rio sabe que existe…
[se eu conquisto o direito de estar triste,
renego a minha afável natureza…]
Maria João Brito de Sousa – 26.10.2011 - 15.20h
Se a Cidade contasse os segredos
Das janelas fechadas dos dias
Quantos rostos e mãos não verias
Nas cortinas já gastas dos medos,
Quantos corpos em estranhos folguedos,
Quantas camas desfeitas, já frias,
Quantas mesas de pinho vazias
De uns pedaços de pão, mesmo azêdos?
Se a Cidade pudesse falar
E se erguida do chão, a gritar,
Rebentasse em protesto incontido
Levantando o seu punho no ar...
[... ah, Cidade que eu tento inventar,
nem eu própria sei dar-te um sentido!]
Maria João Brito de Sousa - 05.10.2011 - 15.03h
ALENTEJO
Alentejo das gentes castigadas,
Dos sobreiros reinando nas planuras
E das vozes dolentes, bem timbradas,
Que falam de alegrias, de amarguras…
Alentejo das searas espraiadas
Pl`o trigo inacabável das lonjuras,
Das casas pequeninas, bem caiadas,
Onde, à lareira, o povo queima agruras
Onde a gente se senta nos poiais
E esse pouco parece muito mais
Que o melhor que o mundo possa dar;
Vontade unida em vozes tão plurais
Faz-nos saber que não será demais
O que homens e mulheres não vão calar
Maria João Brito de Sousa – 04.09.2011 – 15.37h
NOTA - Foi feita, neste soneto, uma pequena correcção correspondente a uma falha métrica no segundo verso do primeiro terceto.